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GIG ECONOMY

TEXTO 1 – CONHEÇA A GIG ECONOMY

Em: https://canaltech.com.br/carreira/conheca-a-gig-economy-a-economia-dos-bicos-123448/

A taxa de desemprego no Brasil pode ter caído a dois dígitos em junho (12,%), mas o problema ainda atinge 13 milhões de brasileiros, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa taxa é puxada pela geração de empregos informais. E, por mais que soe negativo, a informalidade também tem sido o motor do emprego no país desde 2017. O mercado informal, que ignora a CLT, gerou 1,846 milhão de postos de trabalho no quarto trimestre de 2017, 2% a mais na comparação com mesmo período do ano anterior.

Isso quer dizer que mais pessoas têm se apoiado nos famosos “bicos” para ganhar dinheiro e é aí que entra a chamada “Gig Economy”. Essa tendência, que também é conhecida como “Economia Compartilhada” ou "Economia dos Bicos", é caracterizada pela oferta de serviços por meio de plataformas digitais, como o Uber por exemplo.

A pessoa se cadastra em um determinado serviço, sem grandes burocracias ou um complexo processo seletivo, e ganha dinheiro ao realizar pequenas tarefas, seja dar carona, entregar comida ou cuidar do cachorro de alguém. É uma prática antiga, claro, mas foi potencializada nos últimos anos pelos negócios digitais.

Neste esquema, segundo explica Matheus Queiroz, editor da Co.cada, os trabalhadores passam a ser então, como define a Uber em seu Termo de Uso, “prestadores terceiros independentes”. E essa é uma característica central da economia dos bicos, as empresas não se responsabilizam nem pelo serviço e muito menos pelo prestador.

"Empresas como essas estão crescendo tanto e se tornando tão poderosas que muitos especialistas em trabalho na economia digital, como Albert Cañigueral, alertam para o risco do surgimento de uma espécie de 'feudalismo digital'. Se no período medieval possuir terras significava riqueza e poder, hoje o poder reside na propriedade das plataformas e dos dados. E não é difícil perceber quem serão os senhores feudais e quem serão os servos nesse novo capítulo da história", escreveu Matheus.

No Brasil, os serviços mais populares dessa economia são os aplicativos de transporte, como o já citado Uber ou Cabify, além do app de serviços de beleza Singu e os de entregas - de comida a encomendas gerais: Loggi, Eu Entrego, Rappi e Uber Eats. Há ainda pessoas que ganham dinheiro com AirBNB (aluguel de espaços), GetNinjas (conecta clientes a prestadores de serviços), DogHero (hospedagem para pets), Quinto Andar (aluguel de imóveis), Grabr (compra de produtos internacionais), OLX (revenda) e muitos outros.

 

CLT ou não CLT, eis a questão

A advogada trabalhista reconhece na Gig Economy um risco de precarização do trabalho, já que os empregados que não se enquadram na CLT não têm resguardados os direitos garantidos pela lei. Por outro lado, ela considera que as novas tecnologias que geraram mudanças na forma como trabalhamos também trouxeram a sociedade para um patamar de autonomia.

“Trata-se de uma democratização do acesso à informação, que empodera as pessoas e traz outras capacidades de trabalho”, disse Poliana Banqueri, advogada do escritório Peixoto & Cury e especialista em direito do trabalho e direito digital, ao blog da Udacity. Para a advogada, o gerenciamento de seu próprio trabalho também pode ser visto como uma oportunidade.

“O importante não é defender esta ou aquela legislação trabalhista, mas prezar por um trabalho justo. Não dá mais para imaginar que a única forma justa e digna de trabalho é a CLT. Essa nova forma que deposta pode apontar para um avanço natural da nossa sociedade no caminho para uma economia mais empreendedora”, finalizou.

Quem embarca nessa?

Para o professor de Marketing Digital do Insper, Romeo Busarello, a Gig Economy foi a forma de ensinar seu filho adolescente a empreender. Durante as férias, ele chegou a fazer mais de R$ 1 mil entregando comidas pelo Rappi e cuidando de cachorros com a ajuda do DogHero. “Esses serviços têm a chamada ‘ditadura do review’ o que obriga a todos a oferecerem um excelente serviço", comentou durante aula no instituto. "Dessa forma, ele aprendeu cedo que é preciso fazer as coisas com qualidade", finalizou.

Já a manicure Madalena trocou o salão em que trabalhava 6 dias por semana pelo app Singu. Ela tira até 20% a mais por mês e escolhe os períodos em que quer trabalhar. "Eu tenho mais tempo pra minha família, porque trabalho em horários alternativos. É bom pras clientes e pra mim", contou em um rápido bate-papo. Esse novo cenário também é positivo para quem possui um emprego e quer aumentar a renda.

Nos Estados Unidos, o número de pessoas que ganham a vida na Gig Economy cresceu 10 vezes desde 2012 e 4% delas já trabalharam nesse sistema em algum ponto de suas vidas profissionais, segundo estudo da JP Morgan Chase Institute. A previsão é que, por lá, 40% dos trabalhadores americanos terão suas vidas profissionais na Gig Economy até 2020, de acordo com outro estudo da Intuit Research. Dá para imaginar que algo semelhante ocorra por aqui também. Vale ficar de olho.

 

TEXTO 2 – GIG ECONOMY E A REVOLUÇÃO NAS RELAÇÕES DE TRABALHO

Em: https://blog.runrun.it/gig-economy/

Os impactos da automação e as transformações nos modelos de trabalho são temas recorrentes no blog. Cada vez mais vemos o crescimento de novas tecnologias, suas aplicações na economia e nas organizações, e os efeitos na rotina profissional. Entre as tendências apontadas para o futuro, está a chamada gig economy. Para quem ainda não está por dentro da expressão, vamos explicá-la adiante, mostrar a evolução desse formato de trabalho e o que você, como gestor(a), precisa saber.

 

O que é a gig economy?

O Dicionário de Cambridge considera “gig economy” como um arranjo alternativo de emprego. “Uma forma de trabalho baseada em pessoas que têm empregos temporários ou fazem atividades de trabalho freelancer, pagas separadamente, em vez de trabalhar para um empregador fixo”, pontua.

Ou seja, o emprego convencional com trabalho em horário fixo e no escritório da empresa está sendo substituído por relações mais fluidas. Como se fossem trabalhos sob demanda, remunerados por serviços, como por exemplo as atividades de motoristas do Uber ou as plataformas para contratação de freelancers como Upwork, Workana, VoiceBunny e a brasileira Crowd. Nelas, é possível encontrar especialistas para todas as áreas de atuação.

Então, com as mudanças provocadas pelas tecnologias, a previsão era de um aumento exponencial no número de contratados autônomos e temporários. Inclusive, segundo esta pesquisa publicada na CNN no ano passado, a gig economy já representava 34% da força de trabalho nos Estados Unidos e, em 2020, deveria atingir 43% do total.

Realmente está crescendo?

No entanto, um estudo recente divulgado pelo Bureau de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos mostrou que, na contramão da maioria das pesquisas, a gig economy está encolhendo. Segundo os novos dados, a participação dos americanos em empregos alternativos caiu de 10,9% da força de trabalho em 2005 para 10,1% em 2017.

A queda mais acentuada foi entre os freelancers. No ano passado, os contratados independentes representavam 10,6 milhões de pessoas, ou 6,9% dos empregados. Em compensação, em 2005, essa parcela somava 7,4% dos trabalhadores.

Não é bem assim

Apesar dos números contrários às expectativas, os pesquisadores questionaram a metodologia e a falta de um panorama mais completo. O Instituto Aspen, organização internacional de pesquisa sem fins lucrativos, disse que só foram considerados os trabalhos alternativos como ocupação única e exclusiva, o que deixou muitas pessoas de fora do registro.

“Embora os dados mostrem uma leve diminuição no número de trabalhadores que dependem de arranjos alternativos, eles não fornecem informações sobre as pessoas que se dedicam a esse tipo de trabalho para complementar sua renda”, declarou o Instituto, em comunicado divulgado ao portal Fast Company.

Vale lembrar um detalhe importante, principalmente, no caso americano. Após a crise de 2008, os profissionais buscaram diferentes modalidades de trabalho para compor a sua remuneração, somando atividades paralelas ao emprego integral. O número do bureau, então, corrobora com isso justificando o fato do emprego alternativo não estar mais pagando integralmente as contas das pessoas, que procuram um emprego estável para isso.

Esta pesquisa da McKinsey de 2016 está alinhado com tal teoria. O estudo, que incluiu pessoas complementando a sua renda com empregos alternativos, descobriu que entre 20% e 33% da população em idade ativa na Europa e nos Estados Unidos realiza algum tipo de trabalho independente.

Por outro lado, o Instituto Aspen fez outra observação em relação aos dados sobre a gig economy. Segundo a organização, as empresas não são obrigadas a dizer ao governo dos EUA como estão empregando as pessoas. Então, podem ser omitidas informações sobre os freelancers, autônomos e temporários.

Exemplos de gig economy

Os principais expoentes deste modelo de trabalho são os novos serviços de compartilhamento e as plataformas para freelancers. Esta matéria do Washington Post mostra como os serviços de hospedagem e transportes, como AirBnB e Uber, utilizam os profissionais autônomos para as atividades sob demanda, conseguindo preços mais acessíveis e criando vantagem competitiva.

Além deles, as ferramentas para registro de freelancers também se proliferam pelo mundo e atingem todas as áreas. Conectam os profissionais cadastrados a interessados em seus serviços, desde os trabalhos operacionais até os criativos. Segundo o relatório anual de tendências de internet e tecnologia da conceituada analista Mary Meeker, as atividades freelancers estão em franca expansão e são a principal fonte da flexibilização das formas de trabalho.

Entre os insights do estudo aplicado nos Estados Unidos, vale a pena destacar:

  • A força de trabalho freelancer cresceu três vezes mais rápido que o emprego tradicional entre 2014 e 2017;

  • As atividades freelancers aumentaram 8,1%, contra 2,5% das convencionais no período de três anos;

  • A contratação de serviços sob demanda em plataformas subiu 23% em 2017, impulsionada por Uber, AirBnB, Etsy, Upwork e Doordash;

  • Neste ano, os serviços sob demanda devem chegar a 6,8 milhões de trabalhadores empregados;

  • 51% das pessoas aceitariam trocar de trabalho por maior flexibilidade de horários.

 

Se no cenário americano os números indicam o crescimento a todo vapor, a China também não fica atrás. De acordo com estimativa da AliResearch, 400 milhões de chineses terão trabalhos alternativos até 2036. E, atualmente, 60 mil profissionais já estão registrados na plataforma freelancer local Ziwork.

 

A geração Y e a gig economy

Entre os lados positivos e negativos desse novo modelo de trabalho, a geração Y é quem usufrui das maiores vantagens. Para esses profissionais mais jovens, que têm entre 18 e 35 anos, um desejo costumeiro é deixar o trabalho convencional. A flexibilidade e o trabalho remoto são aspectos que despertam a atenção dos chamados millennials.

E a gig economy é a oportunidade para a geração Y, em busca por independência e controle sobre suas carreiras. Logo, podem escolher seus parceiros de negócios, clientes e fornecedores com autonomia. Assim como têm a liberdade de atuar em diferentes frentes profissionais.

No entanto, também há desafios. Ao mesmo tempo em que permite uma jornada flexível, a gig economy exige mais responsabilidade e disponibilidade de quem quer trabalhar nesse formato. Dos profissionais adeptos da modalidade até os clientes e as empresas contratantes, é necessário organizar os processos.

Para a sua gestão lidar com os trabalhadores nesse novo modelo e aumentar a produtividade da equipe, é preciso estruturar o fluxo de trabalho e ter o controle das horas trabalhadas. Assim, você poderá gerenciar as pessoas para acompanhar o desempenho e os resultados das tarefas realizadas.

 

TEXTO 3 - A GIG ECONOMY VEIO PARA FICAR...

Em: https://www.startse.com/noticia/empreendedores/50246/economia-gig

A gig economy será a principal tendência dentro dos escritórios nos próximos anos. Com isso, a vida dos funcionários será modificada completamente, disse um CEO que trabalha com 30% das empresas que estão na Fortune 100 – uma lista anual das maiores empresas públicas e privadas dos Estados Unidos.

Mas o que é gig economy? A gig economy, também conhecida como “economia freelancer” ou "economia compartilhada" (um termo um tanto quanto incorreto), é um ambiente que compreende tanto trabalhadores temporários e sem vínculos empregatícios quanto empresas que contratam esses trabalhadores para realizar tarefas pontuais. O termo não é novo, mas se tornou uma tendência mundial na era digital, após ser impulsionado por empresas da Nova Economia.

De acordo com Patrick Petitti, co-CEO da Catalant Technologies, a forma como as companhias empregam seus funcionários é desatualizada e insana à luz das novas tecnologias. Segundo ele, os profissionais do futuro trabalharão de forma muito mais prática do que trabalham atualmente. A própria Catalant, por exemplo, possui um serviço de matchmaking que conecta empresas a profissionais sob demanda para a realização de projetos específicos.

É bem simples: os usuários se inscrevem no site da empresa ou acessam o serviço por meio de várias empresas de consultoria com as quais a Catalant trabalha. Os perfis desses profissionais são exibidos para os gerentes das empresas que estão contratando pessoas para projetos específicos e, ao final do trabalho, o funcionário recebe uma nota referente aos serviços prestados. A correspondência entre as empresas e esses profissionais é feita por um algoritmo com base nas habilidades, interesses, experiência e nível de classificação que os funcionários obtiveram em trabalhos anteriores.

Segundo Patrick, será a tecnologia a responsável por afastar cada vez mais as pessoas dos empregos tradicionais. Para ele e Rob Biederman, o outro CEO da empresa, os funcionários estão começando a ver suas carreiras de maneira diferente – agora eles enxergam o trabalho mais como uma série de experiências de vida e até se envolvem mais com as tarefas. "O modo como as pessoas têm trabalhado tradicionalmente é deprimente... O fato de você estar em uma empresa que lhe diz o que fazer, quando e onde, isso não está certo. Vivemos em um mundo onde as pessoas devem ser capazes de trabalhar nas coisas com as quais se importam e devem ter mais controle sobre como elas vivem", diz Petitti.

Apesar dos benefícios, o trabalho autônomo também vem com uma série de preocupações em relação à segurança do emprego, salário estável e direitos trabalhistas. O trabalho freelancer pode ter muitos benefícios, mas também pode não ser adequado para todos. Com a lei atual, de acordo com Frank Field, um legislador britânico, os trabalhadores da gig economy estão vulneráveis. “Os trabalhadores estão vulneráveis ​​à exploração de empregadores inescrupulosos. Estando em um falso emprego autônomo, eles podem acabar em uma situação com o pior dos dois os mundos".

De acordo com Field, é preciso fazer mudanças na lei para proteger adequadamente os trabalhadores freelancers à medida que a economia se desenvolve. E parece que essa mudança acontecerá realmente. Segundo a American Frelance Union, os trabalhadores freelancers agora representam 36% da força de trabalho dos Estados Unidos e devem superar os trabalhadores tradicionais até 2027 – isso mostrará que a gig economy é muito maior do que a Catalant Technologies.

 

 

TEXTO 4 - GIG ECONOMY E O FENÔMENO DA UBERIZAÇÃO

Retirado de artigo disponível em:

https://www.anamatra.org.br/images/DOCUMENTOS/2019/O_TRABALHO_NA_GIG_ECONOMY_-_Jota_2019.pdf

Conquanto plurissêmica, poderemos convir, com alguma adesão ao discurso, que a expressão “gig economy” designa o macroambiente de negócios caracterizado pelo predomínio de contratos de curta duração com trabalhadores independentes. Já não estamos, neste caso, na dimensão das especulações futurológicas. Vivemos a gig economy hoje (ainda que nem sempre a percebamos nas nossas vidas). Valerá bem conhecê-la algo mais.

Segundo Stefano (2015, p.1), a gig economy abarca duas principais formas de trabalho: o crowdwork e o work on-demand.

O crowdwork - ou, literalmente, o “trabalho em multidão” - envolve plataformas virtuais de trabalho coletivo destinadas à captação de prestações laborais, em um universo virtualmente global de potenciais prestadores, para o cumprimento de uma série de tarefas adredemente ordenadas (tasks). Noutras palavras, as plataformas do crowdwork colocam em contato um número indefinido de organizações e indivíduos por meio da rede mundial de computadores (internet), permitindo potencialmente conectar clientes e trabalhadores em uma base global.

A natureza das tarefas executadas é variada (STEFANO, 2015, p.2): envolve desde microtarefas (i.e., atividades extremamente curtas e simples, muitas vezes subalternas e monótonas, mas que ainda exigem algum tipo de julgamento que está além da capacidade da inteligência artificial, como a valorização de emoções humanas em fotografias) a tarefas maiores e mais complexas, que igualmente exigem níveis de criatividade, sensibilidade ou intuição impraticáveis no universo A.I. (como, p. ex., a criação de um logotipo).

Um dos maiores exemplos de crowdwork pode ser identificado nas atividades da Amazon Mechanical Turk (MTurk). Trata-se de um serviço de crowdsoursing (i.e., de busca por ideias, conteúdos ou serviços a partir de contribuições de comunidades virtuais) pelo qual indivíduos e empresas - conhecidos como requesters - coordenam o uso da inteligência humana para executar tarefas que os computadores atualmente não conseguem realizar (Human Intelligence Tasks – HITs), tais como escolher as melhores opções entre várias fotografias ou vídeos, identificar sentimentos ou pertinências a partir desses conteúdos, redigir descrições de produtos etc. Os prestadores de serviços, coloquialmente conhecidos como turkers (ou taskers), navegam entre os trabalhos existentes e os concluem em troca de um pagamento monetário predefinido. O solicitante pode aceitar ou recusar o produto da tarefa, mesmo depois de concluída.

O work on-demand corresponde ao trabalho sob demanda via aplicativos. É uma forma de trabalho na qual a execução de atividades tradicionais como transporte e limpeza, por exemplo, é canalizada por aplicativos gerenciados por empresas que também intervêm na definição de padrões mínimos de qualidade de serviço e na seleção e gestão da força de trabalho.

Um dos maiores exemplos de work on-demand - e, sem dúvida, o maior símbolo da gig economy - é a Uber Technologies Inc. Startup, presente em mais de 600 cidades, em 65 países, com 18.000 empregados e 3 milhões de “parceiros” em todo o mundo. Sua finalidade corporativa é mediar a multidão de consumidores poupadores que precisam de transporte e a multidão de motoristas que precisam de trabalho.

O “fenômeno Uber” foi tão bem sucedido e se espraiou de tal maneira que a expressão “uberização” (da economia e, consequentemente, do trabalho) passou a designar essas alterações estruturais não apenas no ramo de transportes, mas em vários outros segmentos. Por isso é que, neste breve estudo, reservamos especial destaque à uberização do trabalho no seu ninho primeiro: a própria atividade da Uber. Sabe-se bem que a existência (ou não) de vínculo empregatício entre os motoristas e a própria Uber tem sido tema relativamente frequente nos tribunais do trabalho brasileiros e estrangeiros. Cite-se, p. ex., a class action que representou 385 mil motoristas da Uber nos estados norte-americanos da Califórnia e de Massachusetts, ou ainda a emblemática decisão do Employment Tribunal de Londres (28.10.2016).

No Brasil, vale recordar, entre várias outras, as decisões do TRT de Minas Gerais (3ª Região), do TRT de São Paulo (2ª Região), da 48ª Vara do Trabalho de São Paulo, da 12ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte, da 86ª Vara do Trabalho de São Paulo e a 10ª Vara do Trabalho de Gama. Reproduza-se, por todos, excerto do voto vencedor nos autos do Processo n. 1000123-89.2017.5.02.0038, do TRT-2 (15ª T., rel. Des. Beatriz de Lima Pereira), em que o Regional reconheceu o liame de emprego entre o motorista e a Uber do Brasil Tecnologia Ltda., a Uber International B.V. e a Uber International Holding B.V. Se se tratasse de mera ferramenta eletrônica, por certo as demandadas não sugeririam o preço do serviço de transporte a ser prestado e sobre o valor sugerido estabeleceriam o percentual a si destinado. Também não condicionariam a permanência do motorista às avaliações feitas pelos usuários do serviço de transporte. Simplesmente colocariam a plataforma tecnológica à disposição dos interessados, sem qualquer interferência no resultado do transporte fornecido, e pelo serviço tecnológico oferecido estabeleceriam um preço/valor fixo a ser pago pelo motorista pelo tempo de utilização, por exemplo.

Outros vários julgados, como se disse, caminharam na mesma direção. Interessa, pois, compreender como a jurisprudência nacional (e estrangeira) chegou às margens desse rio de polêmicas. Tal qual dito acima, a Uber tem como objetivo central fazer a intermediação, via aplicativo, entre passageiros e motoristas (embora não se autointitule empresa de transporte, mas de tecnologia), ganhando por isso uma porcentagem sobre o valor das corridas. No desempenho desse objeto social, traça uma série de diretrizes que devem ser obrigatoriamente seguidas pelos motoristas cadastrados.

Sobre esse novo modelo de trabalho surgem inúmeras discussões – não só no Brasil, mas em todo o mundo – sobre a tutela jurídica em torno do trabalho desses motoristas. A partir da interpretação/aplicação dos artigos 2º e 3º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no hipótese Uber, as maiores polêmicas estabelecem-se sobre dois elementos centrais da relação de emprego (e, consequentemente, do Direito do Trabalho): a alteridade e a subordinação. A alteridade, derivada do artigo 2º da CLT - segundo a qual os riscos da atividade econômica são assumidos pelo empregador -, entra em crise no limiar da uberização do trabalho, uma vez que os riscos da atividade econômica são coletivizados para a multidão de “trabalhadores-microempreendedores”.

Há, com efeito, uma “transferência de riscos e custos não mais para outras empresas a elas subordinadas, mas para uma multidão de trabalhadores autônomos engajados e disponíveis para o trabalho” (ABÍLIO, 2017). Da mesma maneira, os predicamentos da subordinação, presentes na relação de emprego tradicional (tais como o poder de modulação, o poder de fiscalização e o poder punitivo), são, em parte, coletivizados para a multidão de consumidores, que avalia a qualidade do serviço; e, noutra parte, permanecem nas mãos da Uber, já que é ela quem traça as diretrizes (contratuais, inclusive) de quantas corridas é possível o motorista não aceitar ou qual a nota mínima (dada pelos consumidores, é verdade) que ele deve ter para continuar cadastrado no aplicativo.

Assim, a subordinação clássica (subjetiva), tal como construída a partir do artigo 3º da CLT, parece não mais se evidenciar com tanta clareza, deixando espaço para discussões acerca da subordinação objetiva (em face da realização, pelo trabalhador, dos objetivos sociais da empresa) ou estrutural (harmonizando-se o trabalhador à organização, dinâmica e cultura do empreendimento que lhe capta os serviços), as quais poderiam sufragar, em leituras alternativas, a configuração do vínculo empregatício (BRASIL, 2013).

Diante desse quadro, surgem também debates em torno de “terceiras-vias”, que já não se restringem ao binômio empregado/nãoempregado. Isto porque, de um lado, deve-se levar em consideração os impactos sociais de negar tutela jurídica para milhares de trabalhadores somente pelo fato de não se enquadrarem nos moldes da subordinação clássica, deixando-os à margem garantias jurídicas que lhes proporcionem direitos trabalhistas e previdenciários mínimos.

De outro lado, porém, não há como ignorar os impactos econômicos de se considerar todos os motoristas do Uber – e, em sentido mais amplo, todos os trabalhadores que laboram por demanda via aplicativo – como empregados. Tais desafios têm de ser equacionados. Exatamente por isso, é razoável considerar alternativas que não se restrinjam ao “tudo ou nada” da configuração do vínculo empregatício, possibilitando algum tipo proteção jurídica para esses trabalhadores, mesmo se não empregados, a exemplo do que promove, em contexto similar, o “Estatuto del Trabajo Autónomo” espanhol (Ley nº 20, de 12.7.2007), que garante direitos sociais mínimos para trabalhadores autônomos economicamente dependentes.

Essas alternativas legais, ademais, não excluem as alternativas genuinamente sociológicas, que já se revelam no dia-a-dia. Com efeito, a eventual ausência de vínculo empregatício não impede a organização dos trabalhadores uberizados para o protesto coletivo e a conquista de melhorias de condições sociais.

Nessa alheta, veja-se, por exemplo, o que se deu por ocasião da campanha “Fight for US$15”, envolvendo os restaurantes fast-food dos Estados Unidos da América e a luta por melhores salários; ou a greve dos ciclistas-entregadores da Foodora, na Itália, contra o desligamento virtual de lideranças; ou, ainda, a paralisação da Marginal Pinheiros e da Av. Rebouças pelo SindiMotoSP, contra cortes no valor pago pelo serviço de entregas da empresa Loggi.

 

TEXTO 5 –  A ‘GIG ECONOMY’, PROPOSTA MODERNA DE TRABALHO, MAIS ESCRAVIZA DO QUE LIBERTA

Em: https://jornalggn.com.br/trabalho/a-gig-economy-proposta-moderna-de-trabalho-mais-escraviza-do-que-liberta-alerta-pesquisador/

 Durante passagem por São Paulo, onde realizou uma palestra no Insper, promovida por ex-alunos de Stanford, Jeffrey Pfeffer, considerando hoje um dos grandes pensadores da gestão moderna e atual professor de comportamento organizacional na Graduate School of Business da Universidade de Stanford, alertou para os riscos da chamada “gig economy”.

O termo se refere a uma proposta que tem se popularizado no mundo todo e consiste na contratação de pessoas em regimes temporários, como autônomas e freelancers. O professor é autor e coautor de 15 livros sobre administração, o mais recente chama-se “Morrendo Por um Salário – Como as práticas modernas de gerenciamento prejudicam a saúde dos trabalhadores e o desempenho da empresa – e o que podemos fazer a respeito” (editora Alta Books), onde trata do novo universo do trabalho.

Em entrevista ao jornal Valor, Pfeffer acentuou que a “gig economy”, ao contrário da imagem que tentam apresentar, como uma proposta que deixa o trabalhador livre das amarras da gestão tradicional, na realidade está deixando os profissionais cada vez mais inseguros e frágeis do ponto de vista financeiro, físico e emocional.

“No Vale do Silício, é possível ver engenheiros de 30 anos de idade com corpos de 50”, observou. “Lá, as pessoas acreditam que tudo o que importa é terminar o trabalho e que devem tomar qualquer substância, legal ou ilegal, como esteroides, cocaína e o que for preciso para fazer isso”, disse.

“Se você decide fumar amanhã, o cigarro não afetará sua saúde imediatamente, mas com o tempo você ficará doente. Da mesma forma, se você decidir trabalhar horas irracionais ou tomar drogas, com o tempo, terá que pagar um pedágio enorme”, completou.

Segundo o pesquisador, que nos anos 2000 chamou atenção por criticar os cursos de MBA, o modelo de relação entre trabalhador e empresa, que coloca sobre o primeiro toda a responsabilidade e segurança de sua própria vida, está conduzindo ao aumento expressivo de estresse entre os profissionais.

Ele pontua que, quem trabalha na gig economy, tem mais preocupações com a instabilidade financeira, perda de emprego, falta de seguro saúde e, ainda, nem sabe direito quais serão seus horários em uma semana ou outra, e isso resulta em prejuízos na vida social e familiar.

“Como você pode se planejar quando não sabe qual será a sua agenda de um minuto para outro?”, pergunta. O pesquisador pondera que a estabilidade e segurança não podem ser substituídas por mesas de pingue pongue ou sushi. E, inda, que as organizações deveriam saber que trabalhadores saudáveis produzem mais e faltam menos, logo, deveriam deixá-los dormir o suficiente ao invés de permitir um tempo livre para uma soneca.

Segundo Pfeffer, o que os profissionais querem hoje e terem senso de segurança, oportunidade de equilibrar as várias obrigações na vida e um chefe que os respeitem.

“Em certo momento, éramos companhias que se sentiam responsáveis por todas as partes, pelos clientes, pela comunidade e pelos funcionários. Agora, elas pensam que não são responsáveis por ninguém, talvez pelos acionistas. Mas, certamente nada além dos acionistas”, lembrou Pfeffer defendendo que as empresas deveriam voltar a tratar os funcionários à moda antiga.

“A tendência atual do aumento da depressão e de doenças crônicas não são um problema só do primeiro mundo. Está em todo lugar. Estamos realmente no caminho do que considero insustentável”, observou mostrando que a insegurança no trabalho se estende em várias partes do mundo.

“Precisamos poder decidir em que tipo de futuro vamos viver”, concluiu o pesquisador se referindo à chegada da inteligência artificial, situação que deixará milhões de trabalhadores sem emprego, agravando o quadro de estresse global.

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