WANDERLEY NOVATO

A quentinha do varejo
Eleita uma das dez empresas mais inovadoras do mundo pela Design Retail, a Bento Store conseguiu um aporte do apresentador Luciano Huck e já conta com cinco lojas próprias em apenas um ano e meio de vida. Entenda a estratégia da rede, que vende marmitas cool.
Carlos Ferreirinha, dono da MCF Consultoria, empresa especializada em gestão de empresas de luxo, caminhava pelo shopping Vasco da Gama, em Lisboa, quando se deparou com um quiosque repleto de “lunch boxes” ou, no bom e velho português, as tradicionais marmitas. Mas não eram aquelas caixas de alumínio muito comuns por aqui. Fabricadas pela francesa Monbento, elas vinham cheias de design e estilo, algo que ele nunca tinha visto no Brasil. “Na hora, achei aquilo sensacional”, diz Ferreirinha.
Fazia mais de um ano que ele havia juntado forças com Carlos Otávio da Costa Silva, um ex-funcionário da rede de cinemas Cinemark, para empreender um novo negócio fora de sua consultoria. “Analisamos o mercado de moda, mas decidimos que buscaríamos algo no setor de bem-estar”, diz Ferreirinha. Qualquer que fosse a escolha, o risco era enorme. “Eu não podia errar. Os clientes da consultoria poderiam dizer: ‘Você não faz direito na sua marca e quer nos ensinar?’”. Para deixar o cenário ainda mais tenso, Ferreirinha ligou para seu sócio e avisou que havia encontrado o produto certo para vender no Brasil.
“Marmitas?! Você está louco!”, retrucou Costa Silva. Pois, em apenas um ano e meio, a ideia, inicialmente vista como uma insanidade, se transformou na Bento Store, uma rede de varejo com cinco lojas – com plano de expansão para 20 unidades no próximo ano –, vendas online, pop-up store e shop-in-shop em curso. Um negócio eleito pela publicação americana Design Retail, a bíblia do varejo mundial, como um dos dez mais inovadores do mundo. Mas como eles conseguiram transformar marmitas em algo cool, objetos de desejo de um público exigente? O primeiro passo foi buscar fornecedores que tinham um apelo de design, sem deixar a tecnologia de lado.
Foram mapeados fabricantes na Noruega, França, Itália, Alemanha, EUA e Japão, a terra das bentôs, as marmitas nipônicas. “Pesquisamos tudo sobre mobile food, como sacolas térmicas, garrafas, bentôs”, diz Costa Silva. “Não existia uma loja que vendesse tudo junto.” O problema é que os fornecedores nem atendiam “aqueles brasileiros que insistiam em ser recebidos para uma reunião”. A saída foi usar o histórico da MCF, que conta com clientes como Copacabana Palace, Audi, Cartier, Marc Jacobs, e de Ferreirinha, ex-presidente da Louis Vuitton no Brasil.
Só depois disso é que passaram a marcar as reuniões. Antes de embarcarem, entretanto, eles desenvolveram todo o conceito com um logotipo inspirado em um cubo mágico e ainda encomendaram o projeto da loja à arquiteta Leticia Nobell. Ela desenhou uma caixa em que os produtos ficariam expostos para a experimentação dos clientes – uma caixa dentro da outra. Ao mostrar as imagens e o estudo que havia sido feito, os sócios conseguiram convencer fornecedores de 18 países a assinar contrato de exclusividade. O primeiro ponto foi aberto no dia 3 de dezembro de 2013, na rua da Consolação, no bairro paulistano dos Jardins.
Vinte dias depois, na véspera do Natal, Ferreirinha recebeu uma ligação. Um cliente famoso estava em sua loja e gostaria de conversar com ele. Quando ele entrou, o apresentador Luciano Huck estava encostado na parede olhando todos os produtos e logo fez uma proposta. “Deixa eu te ajudar e acelerar esse projeto?”. Além de homem de televisão, Huck tem uma empresa de investimentos, a Joá, que aposta em empresas como a marca de moda Reserva e a produtora Porta dos Fundos, entre outras. O namoro durou um ano e, no final , a Joá comprou 20% da Bento Store com um aporte que já soma R$ 4 milhões.
“A Joá nos proporcionou garantias financeiras junto aos bancos e também uma expertise em gestão de controle”, diz Ferreirinha. Hoje, além do ponto-de-venda na rua, a Bento Store conta com lojas no Shopping Iguatemi, em São Paulo, no Leblon e Barra Shopping, ambos no Rio de Janeiro, e no Riomar, em Recife. Até o fim do ano, o plano é abrir mais duas lojas e impulsionar as vendas online, que devem representar 25% do faturamento, estimado em R$ 14 milhões. Mais: também estão avançando sobre o mercado corporativo, vendendo seus produtos para empresas como Mitsubishi, Nextel e Vivenda do Camarão.
A estratégia dos empresários se baseia em estudos de comportamento que mostram mudanças no modo como as pessoas estão consumindo e se relacionando com a comida. “Nós éramos vistos como nos vestíamos, agora somos vistos como comemos”, diz Ferreirinha. Não é exagero. A onda da alimentação saudável está fazendo com que as pessoas revejam conceitos. De acordo com o estudo Health and Wellness, da empresa de pesquisa Euromonitor, o segmento de bebidas e alimentos com apelo à saúde e ao bem-estar movimentou R$ 80 bilhões, no Brasil – um crescimento de 95,6% em relação à pesquisa realizada no ano anterior.
E não para por aí: este setor movimente mais de R$ 100 bilhões anualmente Além de o Brasil ser o quarto maior mercado de bem-estar do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Japão, o País também concentra o segundo maior número de academias do planeta, com 30 mil delas espalhadas pelo território nacional. Ao que parece, a Bento Store está bem posicionada. “Eles estão conseguindo fazer com a rede deles o que a Starbucks fez com o cafezinho. Estão trazendo valor agregado e transformando o produto em algo estiloso”, diz Eduardo Tomiya, da consultoria de marcas MB Vermeer. “E também tem o conceito da experimentação nas lojas, os produtos estão ao alcance dos clientes. Quem sabe não estamos falando da próxima Chilli Beans”, diz Tomiya, referindo-se à rede de varejo que vende óculos e relógios. Ferreirinha diz que já tem 150 pedidos de franquia, até nos Estados Unidos, na França e no Japão. Mas ainda acha cedo para formatar esse modelo. “Vamos pensar nisso no ano que vem.”
Adaptado para uso em aula de: http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/estilo/quentinha-varejo/269816.shtml