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A metáfora mecânica na Administração (e seus efeitos na sociedade)

                                                                                                       josé wanderley novato-silva

A Administração Científica e a Escola Clássica de Administração

As ideias de Taylor, Ford, Fayol e Weber podem ser entendidas como uma metáfora: a organização deve ser compreendida como uma "máquina" - e as pessoas que nelas trabalham são como "engrenagens". Esse é a compreensão fundamental da metáfora mecânica na teoria Administrativa. Embora seja hoje contestada em alguns aspectos, está visivelmente presente em muitos aspectos da vida organizacional, social e até individual nos dias de hoje.

Vejamos a origem dessa compreensão:

 

Frederick Taylor foi o expoente de uma série de indivíduos que estavam engajados na racionalização da gestão nas empresas da nascente economia industrial dos Estados Unidos, no início do século XX. Ele demonstrou que encontrar “the one best way” (“a melhor, e única, maneira”, em tradução livre) de realizar qualquer tarefa é a chave para o sucesso organizacional. Ao focalizar a eficiência, demonstrou que a racionalidade administrativa deveria obrigatoriamente selecionar “cientificamente” os empregados pelas habilidades necessárias ao cargo, e não com base na sua inteligência ou por possuíres outros conhecimentos desnecessários para a tarefa específica que deveriam desempenhar.

 

Além disso, ele entendia que o ser humano “médio” preocupa-se prioritariamente com a riqueza material, fugindo de responsabilidades e procurando o descanso sempre que possível. Por isso, procurou uma maneira, que chamou de científica, de conciliar o sucesso dos empresários com essa visão “econômica” dos indivíduos, elaborando estudos de tempos e movimentos que visavam simplificar as tarefas e propiciar o descanso necessário ao trabalho - buscando ao mesmo tempo a máxima produtividade pelo estímulo à ambição individual (para isso propunha o "pagamento por peça") e à vigilância constante dos funcionários. Segundo Taylor, o aumento dos lucros possibilitaria aumentar os salários, levando satisfação tanto para os patrões quanto para os empregados.

 

As ideias básicas do “fordismo” (entendido como um sistema de administração inicialmente da fábrica de automóveis de Henry Ford, mas que depois foi estendido às organizações de diferentes setores) são uma extensão - e até um certo exagero - das ideias de Frederick Taylor. Para Ford, a organização deveria seguir os seguintes fundamentos:

 

1. Autoritarismo

2. Centralização

3. Padronização de tarefas, instrumentos, dos processos de trabalho e dos produtos

4. Aversão aos sindicatos

5. Integração vertical da produção (evitando a terceirização de atividades)

6. Máxima eficiência dos processos, que deveriam ser feitos em linhas de montagem

7. Simplificação (“robotização”) das tarefas (inclusive dos processos administrativos)

8. Intensificação do ritmo do trabalho

9. Redução de custos

10. Barateamento do produto final para possibilitar a sua produção em massa, incentivando o consumo desenfreado.

 

Essas ideias são consistentes com os princípios propostos por Fayol, o criador da Escola Clássica de Administração.

Foi uma das primeiras teorizações gerais sobre a prática da Administração . Fayol foi engenheiro francês que em 1916 ele publicou um livro, fruto da sua experiência pessoal como administrador. Nessa obra, dividiu a organização em seis funções básicas:

  1. Técnicas, relacionadas com as habilidades.

  2. Comerciais, relacionadas com a compra, venda e permuta

  3. Financeiras, relacionadas com a procura e gerência

  4. Segurança, relacionadas com a proteção e preservação dos bens e das pessoas.

  5. Contábeis, relacionadas com inventários, registros, balanços, custos e estatísticas 

  6. Administrativas, relacionadas com a integração das outras cinco funções

 

Identificou também que a função administrativa é formada por cinco elementos: previsão, organização, comando, coordenação e controle.  Com isso, contribuiu para tornar mais nítido o papel dos executivos.

Ele também definiu "princípios" que deveriam orientar os gestores em qualquer tipo de organização:

 


1.Divisão do trabalho
2.Autoridade e responsabilidade
3.Disciplina
4.Unidade de comando
5.Unidade de direção
6.Subordinação dos interesses individuais aos interesses gerais
7.Remuneração do pessoal
8.Centralização
9.Hierarquia
10.Ordem
11.Equidade
12.Estabilidade
13.Iniciativa
14.Espírito de equipe

 

Esses princípios, segundo ele, deveriam ser adaptados para cada situação administrativa específica; por isso, alguns são totalmente atuais na maior parte das organizações; outros, têm sua validade relativizada – mas nenhum é totalmente obsoleto.

 

Resumindo as contribuições de Fayol, pode-se dizer que suas principais preocupações estavam relacionadas à estrutura das empresas e com o trabalho dos administradores – princípios de atuação, e funções administrativas. Nesse momento ele estabeleceu o valor do trabalho de coordenação – isto é: da liderança pensando em várias áreas ou pessoas simultaneamente

Além disso, foi um pensador original porque buscou interpretar as funções e obrigações de um administrador perante a sociedade. Por isso escreveu também sobre aspectos extra-organizacionais, como sobre o ensino técnico e a formação dos administradores, que deveria, segundo ele, também incluir aspectos relacionados à cultura geral.

Adotou portanto, uma perspectiva mais estratégica, diferente de Ford e Taylor, mais preocupados com o lado técnico e operacional das empresas.

Expansão da Administração segundo as ideias de Fayol, Taylor e Ford - e a Teoria da Burocracia

 

A generalização do modelo fordista, adaptado para praticamente todos os tipos de organização fez surgir um “círculo virtuoso”, no qual o aumento de salários (na verdade, conquistado por reivindicações dos trabalhadores) levou ao aumento da produção e do consumo. Isso gerou lucros extraordinários para os empresários. O macro efeito foi o surgimento nos EUA de uma “sociedade fordista” formada por uma enorme classe média, altamente consumista, e estimuladora de comportamentos individuais muito similares. Os padrões de trabalho e consumo acabaram por gerar também uma crescente rotinização da vida individual, mesmo fora do trabalho. Esse modelo de economia e sociedade teve como contrapartida, no campo da política, a criação do chamado “Estado do Bem-Estar Social”, para corrigir os efeitos negativos do sistema produtivo das empresas na economia do país. Esse tipo de Estado, além disso, de supria as limitações sociais do sistema, através de mecanismos de proteção ao trabalhador e da criação de instituições públicas de educação, transporte e saúde, tudo isso possibilitado pela arrecadação de impostos.

 

As empresas, à medida que prosperavam, passaram a ser progressivamente administradas segundo os princípios descritos por Weber - um sociólogo alemão que escreveu na "virada" do século XIX para o século XX - como “burocráticos”, isto é: impessoais, formais, profissionais, hierárquicos, e pautados por normas de pouca ou nenhuma flexibilidade. A administração burocrática seria, segundo Weber, o domínio das "regras" - são elas que têm o poder, e não as pessoas. Mesmo os cargos mais elevados teriam que seguir suas definições burocráticas - isto é, seu poder (sua autoridade) deve ser sempre limitado por normas.

 

É digno de nota que a expressão burocracia era utilizada por Weber como uma forma racional de administração, necessária para a gestão de organizações maiores e mais complexas. Ele extraiu suas conclusões da forma como os governos faziam a administração de grandes territórios, mas suas conclusões ultrapassaram o domínio da administração pública, chegando ao domínio das empresas e das organizações em geral.

 

A preocupação de Weber era o que ele descreveu como o processo de racionalização progressiva da sociedade. A racionalidade, entendida como a adequação dos meios aos fins, implicaria em eficiência, e a burocracia deveria ser então a forma mais eficiente de uma organização. Ele chegou a essa conclusão analisando os tipos de dominação (poder) que se estabeleceram nas sociedades ao longo da história. Weber distinguiu três tipos de poder legítimo – isto é, de autoridade:

  • Tradicional: também chamada de feudal, ou patrimonial, em que a aceitação da autoridade é baseada na tradição e nos costumes, como nas monarquias absolutas.

  • Carismática: em que a legitimidade advém da lealdade e confiança nas qualidades excepcionais de quem governa.

  • Racional-legal ou burocrática: em que a aceitação da autoridade se baseia na aceitação das leis e regulamentos formulados de forma racional.

 

Na organização tradicional (tribo, clã, família, pequenas empresas, negócios familiares) predominam as características conservadoras, patriarcais e patrimonialistas; a obediência é justificada pela tradição e pelos costumes.

O patrimonialismo se refere à ausência de distinção entre os domínios público e o privado. Nas monarquias rei gastava as rendas obtidas pelo governo de forma indistinta, para assuntos e bens de uso pessoal ou para assuntos de governo.

O patrimonialismo foi implantado no Brasil quando ainda era colônia, pela concessão de títulos, de terras e poderes quase absolutos a uns poucos favorecidos, criando uma prática político-administrativa em que o público e o privado não se distingue perante as autoridades; a figura típica do patrimonialismo no Brasil são os “coronéis” – fazendeiros que se valiam do poder econômico para controlar a política local em favor dos seus interesses pessoais.

Na Administração pública esse conceito está associado ao uso do dinheiro e da máquina pública por indivíduos que ocupam posições de poder. Numa empresa equivaleria à confusão entre o patrimônio da empresa e o do proprietário.

 

Em uma organização a gestão pode ser chamada de carismática (partidos políticos, grupos revolucionários, nações em revolução, empresas iniciantes ou em crise), quando existem características personalísticas de excepcionalidade atribuídas a algum líder que se destaca, e que confere a ele poderes extraordinários que o colocam acima das regras instituídas na organização.

Já as organizações burocráticas (as grandes empresas, os estados modernos, os exércitos) são caracterizadas pelo predomínio de normas impessoais racionalmente definidas. O tipo de autoridade (burocrática ou racional-legal) é justificado pela eficiência e eficácia fundamentadas no pensamento científico, caracterizando-se pela profissionalização e pela formalização de normas claras e impessoais.

 

As características da burocracia, particularmente no contexto da gestão organizacional (pública e privada) seguem o conceito do “tipo-ideal”, isto é: são sempre aproximações de um modelo. Não existe nenhuma “burocracia perfeita”; as que cumprem melhor o seu papel devem seguir os seguintes princípios:

  • Atenção rigorosa aos mecanismos de controle

  • Definição precisa de procedimentos e rotinas

  • Impessoalidade (contratação por concurso)

  • Meritocracia (promoção por mérito)

  • Previsibilidade nas ações administrativas

  • Hierarquia e autoridade

  • Definição clara de cargos, suas atribuições e limites

  • Profissionalização

  • Divisão do trabalho e especialização

  • Previsibilidade do comportamento das pessoas

  • Padronização do desempenho

  • Comunicações formais

         A RACIONALIDADE BUROCRÁTICA

 

Um conceito muito ligado à burocracia é o de racionalidade. No sentido weberiano, a racionalidade implica adequação dos meios aos fins. No contexto burocrático, isto significa eficiência. Semelhante ao conceito de Taylor, um processo é racional se os meios mais eficientes são escolhidos para sua implementação. Para Weber, são as metas coletivas da organização e não as dos seus membros individuais que são levadas em consideração. Deste modo, o fato de uma organização ser racional não implica necessariamente que seus membros ajam racionalmente no que concerne às suas próprias metas e aspirações. Muito ao contrário, quanto mais racional e burocrática torna-se uma organização, tanto mais os membros individuais tornam-se simples engrenagens de uma máquina, ignorando o propósito e o significado de seu comportamento. Para Weber, a racionalidade funcional é atingida pela elaboração - baseada no conhecimento científico - de regras que servem para dirigir, partindo de cima, todo comportamento de encontro à eficiência. É esta concepção de racionalidade que fundamenta a teoria de Administração Científica que almeja a descoberta e aplicação da melhor maneira de desempenho e de trabalho industrial.

 

Weber usa o termo burocratização em um sentido mais amplo, referindo-se também às formas de agir e de pensar que existem não somente no contexto organizacional, mas que permeiam toda a vida social. O termo burocratização usado por Weber coincide mais ou menos com o conceito de racionalização. Assim, o racionalismo, para Weber, tanto pode referir-se aos meios racionais e sua adequação ou inadequação para se chegar a um fim, qualquer que seja – atividade racional da organização burocrática –, como também pode referir-se à visão racional do mundo através de conceitos cada vez mais precisos e abstratos, desenvolvidos inclusive pela ciência, rejeitando toda religião e valores metafísicos ou tradicionais – desmistificação do próprio mundo.

 

Embora considerasse a burocracia como a mais eficiente forma de organização criada pelo homem, Weber temia esta grande eficiência, cujos resultados, advindos da crescente burocratização do mundo moderno, seriam uma enorme ameaça à liberdade individual e às instituições democráticas das sociedades ocidentais. (CHIAVENATO, Idalberto. Teoria da burocracia. In:Introdução à Teoria Geral da Administração. São Paulo: MAKRON Books).

 

O fato é que descobriu-se que a burocracia, na prática, muitas vezes "engessa" as organizações. São as chamadas "disfunções burocráticas":  excesso de regras e formalização, gerando atrasos, chefias inflexíveis e acomodação, não correção das falhas e pouca inovação. Algumas dessas consequências imprevistas conduzem a ineficiências, cujos efeitos são muito visíveis, gerando muita insatisfação. Entre as disfunções burocráticas, alinham-se:

 

  • Internalização das regras pelos indivíduos

  • O apego exagerado aos regulamentos (superconformidade)

  • O excesso de formalismo

  • As preocupações com a segurança transformam-se em excesso de documentos

  • Exigência exagerada de controles

  • Rigidez na estrutura e nas ações organizacionais

  • Resistência às mudanças

  • Dificuldade no atendimento aos clientes

  • Não resolução de conflitos internos

  • Limitações da espontaneidade

  • Despersonalização

  • Substituição dos objetivos pelas normas

  • “Lei de ferro das oligarquias” (no interior das organizações sempre haveria a dominação das minorias sobre as maiorias, desmitificando a ideia de uma democracia organizacional)

  • Incapacidade de lidar com mudanças ambientais e operar em situações de instabilidade

 

 

No entanto é legítimo afirmar que sem alguma burocracia é impossível gerenciar qualquer tipo de negócio. Mesmo que a palavra burocracia tenha se transformado na linguagem coloquial no oposto do que Weber escreveu, em função de algumas consequências negativas práticas da sua aplicação, o desafio continua sendo: burocracia, sim - mas quanto, quando e onde? 

 

Essa convergência entre as ideias de Taylor, Ford, Weber e Fayol na administração foi se alastrando para as organizações de todo o mundo – até no nascente socialismo da Rússia pós 1917, e hoje, no novo "império capitalista chinês", controlado por um partido... comunista ! (Pergunta: Como assim?).

 

Embora os seus benefícios sejam inegáveis com relação à criação e distribuição de riqueza, os críticos afirmam que a sociedade fordista, ao estimular o consumo e mecanizar o trabalho, tende a criar uma multidão de indivíduos alienados e individualistas, com vidas vazias e previsíveis, que se alimentam mal e vivem sempre com pressa, muito estressados. Para esses críticos esses indivíduos tendem a ter mais problemas psicológicos do que seria normal, consumindo de maneira frenética remédios variados, incluindo antidepressivos. Os críticos mais ferrenhos dizem que sob esse tipo de capitalismo as pessoas só encontram algum sentido para a existência consumindo de forma compulsiva em ‘shopping centers’ – os espaços que substituíram as praças e os parques como lugares de vida social e até de encontros românticos. Os shopping centers colocam cinemas e restaurantes na mesma posição de lojas de roupas e de eletrodomésticos, já que, para esses críticos, o cinema passa a ser cada vez menos arte, e sim entretenimento; de modo análogo, as refeições passam a ser cada vez menos nutrição e prazer gastronômico, transformando-se em ‘fast-food’ coloridos, um tanto adolescentes.

 

O fordismo prosperou de forma espetacular durante muitas décadas, particularmente após a Segunda Guerra Mundial, e só começou a entrar em crise no final da década de 1960 – em parte por causas externas, mas também pelos efeitos negativos gerados pelo seu próprio sucesso. No entanto, foi se adaptando aos novos contextos históricos que encontrou, e continua sendo, absorvendo as alterações feitas nesses diferentes contextos socioeconômicos -  a forma hegemônica de gestão empresarial e de organização da sociedade.

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